Dias melhores virão
Apr 8, 2010 Desabafo de Mãe, Opinião
A cidade mais linda do mundo acordou soterrada pela lama. Água por todos os lados, caos espalhado da Lagoa à Rocinha, da Barra da Tijuca a Nova Iguaçu. Sem distinção de classe ou cor, todos tiveram sua parcela de agonia. Até agora agradeço a Deus por ter pego meus filhos na escola exatamente às 17h30, na hora em que o temporal começava a cair. Nem entrei no prédio, liguei e pedi que eles viessem até a mim. Passamos a noite em segurança, sem nem sonhar com o que acontecia do lado de fora.
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Tags: chuvas, rio de janeiro
Orgulho de ser carioca?
Carta enviada ao Sr. Prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes,
Olá, Sr. Prefeito
Meu nome é Michelle. Eu sou carioca, da gema, daquelas que sempre sentiu orgulho disso. E, confesso, ultimamente tenho precisado me esforçar muito para continuar com esse sentimento. Já faz alguns anos que ser carioca deixou de ser sinônimo de irreverência, alegria, camaradismo e beleza. Todas essas qualidades, lamento em constatar, têm sido substituídas por esperteza, má educação, desrespeito às regras, individualismo e falta de ética.
Tudo isso é traduzido nas mínimas coisas. Motoristas de ônibus que ignoram sinais e leis de trânsito com a anuência dos donos das empresas de transporte que, por sua vez, não são multados por Guardas Municipais que fazem vistas grossas para tudo isso. Guardar municipais que batem ponto em porta de escola para multar pais e mães que vão buscar seus filhos no fim do dia, mas fecham os olhos para caminhões descarregando em horário ilegal a duas ruas de distância. Caminhões que fazem carga e descarga no meio da rua, em horário ilegal, apoiados por donos de estabelecimentos que os recebem, mesmo sabendo que estão descumprindo a lei e atrapalhando o trânsito. Trânsito que está cada vez pior, fazendo com que nós, os cariocas legítimos, que ainda têm educação, conservam a ética, criam seus filhos para serem cidadãos conscientes, pagam impostos (altos) e contas em dia fiquem horas e horas dentro de um carro, em vez de estarem passando tempo de qualidade em família.
A cada manhã que venho para o centro do Rio de carro da xxxx, prometo pra mim mesma que não vou mais me indignar, sentir embrulho no estômago, abrir a janela do carro e reclamar com um motorista de táxi que parou para pegar passageiro no meio da Avenida Presidente Vargar ou uma Pick up da prefeitura que parou para comprar meias (!!!) fechando uma pista inteira da Rio Branco. Penso e tento me controlar para fechar os olhos, fazer a minha parte sempre, mas evitar me desgastar e sair do sério com todos esses problemas e coisas erradas que me acompanham no percurso de menos de 10km de casa até o trabalho. Percurso esse que faço em 50 minutos, em vez de 15, muito provavelmente por causa da desordem no trânsito.
Mas, sabe o que acontece? Eu não consigo desligar o meu senso crítico, muito menos ignorar meus direitos. E insisto, reclamo com a PM, Guarda Municipal, Ouvidoria da Prefeitura, vou aos jornais. Tirando o último, que vez ou outra publica uma carta minha, os três primeiros só contribuem para a minha indignação aumentar. E o bolo no estômago. Profissionais despreparados, que, na maioria das vezes, fazem parte dessa parcela da população que engrossa o coro dos “novos cariocas”, vamos chamar assim.
Pra piorar, além de ter que conviver com bandidos, tiroteio em favelas, assaltos nas ruas, falta de policiamento e sossego, ontem à noite, eu, moradora da xxxx, precisei aturar seguranças, guardadores de carro e porteiro de clube fazendo o canteiro de centro da minha rua de barzinho. Por volta das 21h, mais de 20 pessoas ouviram jogo de futebol pelo rádio às alturas. Ao fim do jogo, quando eu e meu marido achamos que já estávamos livre, o pior começou. Com uma churrasqueira armada no meio da rua, cadeiras e mesinhas, a arruaça só aumentou. Gritaria, gargalhadas, cantorio. Um corsa amarelo estacionado em frente ao clube xxxx estava com a mala aberta, com a música em alto volume. Passava das 22h. Ao chegar na janela para ver o que acontecia, vi o pior: o porteiro do clube entrava e saía do estabelecimento com várias garrafas de cerveja na mão, para servir aos seus “clientes”. Fiquei de queijo caído porque, além do absurdo dessas pessoas fazerem a rua de ponto de encontro e churrasco, o clube estava contribuindo, servindo a bebida. E o porteiro estava participando da algazarra, algumas pessoas encostadas na grade do clube conversando com ele e rindo.
Liguei para o clube e reclamei. A resposta? “O bar está aberto, eu posso vender”. Questionei que ele pode vender a bebida DENTRO do clube, e não no meio da rua, onde as pessoas ilegalmente faziam um churrasco, e ele disse que não tinha nada com isso. Ao perguntar seu nome, ele simplesmente respondeu “não interessa”.
E foi então que eu infelizmente constatei que ele estava certo. Liguei para o 109 duas vezes e nada de viatura para dispersar a baderna. Insisti com o xº batalhão e, em vez de ouvir que as pessoas realmente estavam erradas e seriam coibidas, recebi do outro lado da linha mais uma prova de despreparo da polícia: o capitão, ou seja lá qual for sua patente, começou a desfiar um rosário para explicar porque esse assunto era com a prefeitura. Eu insisti, dizendo que com a prefeitura em me entenderia no dia seguinte, em horário comercial, mas que a polícia tinha responsabilidade também. Baderna! E, completando essa piada que é viver no Rio de Janeiro, recebo a velha desculpa: “hoje a coisa está meio complicada aqui xxxx, estamos sem viatura”. Como se o meu problema deixasse de existir por conta disso.
Perto da meia noite, ainda indignados com a bagunça que continuava em alto volume, ligamos para a guarda municipal e não tivemos grande progresso. A mesma promessa vazia de que mandaria alguém para averiguar. Coisa que nunca aconteceu.
Após ouvirmos a galera cantar “parabéns para você” em coro, para a rua inteira ouvir, só nos restou ir deitar, ao som de pagode, risadas, com perfume de churrasco que invadiu o apartamento. E sonhar com o dia em que conseguiremos viver dignamente em outra cidade, tendo que deixar para trás o lugar que mais amamos, onde nascemos.
Choque de ordem? Nossa cidade precisa de um choque de ética e respeito as direitos dos cidadãos. Enquanto não tivermos crianças nas escolas, sendo educadas para não crescerem esses adultos que desrespeitam o direito do próximo, ignoraram as leis mínimas de convivência e acham que são mais espertos porque descumprem as leis não adianta derrubar prédios em favelas ou expulsar camelôs das ruas. Tapa-se a ferida sem tentar curá-la.
Não votei no senhor, mas não é por isso que deixei de acreditar. Vi algumas entrevistas em que o ouvi falar justamente sobre essa necessidade de recuperarmos o antigo carioca e nos livrarmos de vez dessa maldição do “levar vantagem em tudo”. E é por isso que resolvi escrever. Nem sei qual o meu objetivo ao fazer isso, talvez por estar cansada de ouvir minha voz ecoar no vazio. Imagino que, lhe escrevendo diretamente, a chance de isso acontecer seja bem menor. Pelo menos eu torço por isso.
Atenciosamente,
Michelle Aisenberg
Jornalista, carioca, casada, mãe de dois filhos
Guardem esse nome
Mar 5, 2008 Opinião
Carlos Alberto Direito. Esse é o nome do nosso Ministro, homem visionário, que fez o favor de adiar indefinidamente uma votação tão importante como a da lei de Biossegurança. O motivo? A decisão é “polêmica demais” e é preciso mais tempo para debater. Hein?! A lei foi aprovada em 2005 e, no mesmo ano, uma liminar já a suspedia. Três anos depois, nosso ministro acha que não houve tempo suficiente para discutir o assunto?! O que ele estava fazendo durante esse período? A quem ele estava representando quando tomou essa decisão?
Sinceramente, é nessas horas que eu me sinto uma areia no deserto. Uma decisão que pode mudar a vida de milhões de pessoas para melhor, um avanço sem precedentes no campo científico, a chance de acompanhar as grandes potências… e nosso ministro burocrático prefere “jogar com a tabela” e pedir vistas?! E mais, isso aconteceu depois de pelo menos quatro horas de sessão? Quanto desperdício de tempo, de dinheiro, de esperança.
Hoje fui e voltei do trabalho ouvindo a CBN. Só posso dizer que ouvi entrevistas patéticas, uma de um padre, dizendo que “nós todos já fomos fetos e tivemos a chance de nascer”. ESTÚPIDO! A prova de que a igreja muitas vezes é do contra pura e simplesmente por ser. Um livrinho de biologia básico, de terceiro ano, esclareceria ao padre em questão que só chamamos de feto um embrião com mais de 12 semanas.
Ministro Carlos Alberto Direito, muito obrigada. Em nome de todos os brasileiros que, como eu, esperavam um fim útil para os embriões que temos congelados. Em nome de todos os doentes que têm a progressão de suas doenças crônicas como uma sentença de morte. Em nome de todas as mães que choram e sofrem, vendo seus filhos sofrerem sem poder trocar de lugar com eles. Responsabilidade é uma coisa. Omissão é outra.
Se você quer entender mais sobre a lei de Biossegurança e os impactos para o país, clique aqui.
A sociedade opina. E você?
Mar 4, 2008 Opinião
Amanhã é um dia importante para os brasileiros. Talvez poucos saibam disso. É quando o Supremo Tribunal Federal (STF) vai julgar a ação que definirá a constitucionalidade das pesquisas com células tronco embrionárias no Brasil.
E eu, como “mãe” de 11 embriõezinhos que nesse momento estão congelados, estou torcendo para um parecer favorável. Já que eles não vão virar irmãozinhos do Rafa e da Juju, que sirvam para a busca da cura para doenças e a melhoria da qualidade de vida de muitos filhos que sofrem demais e, por conseqüência, das mães que vivem de coração apertado e mãos atadas, sem muito o que fazer para impedir isso.
O Supremo Tribunal Federal (STF) julgará, na quarta-feira, 5 de março, a ação que definirá a constitucionalidade das pesquisas com células tronco embrionárias no Brasil. A Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) foi proposta pelo ex-procurador geral da República, o católico Cláudio Fontelles, que defende a suspensão de tais pesquisas, baseando-se em argumentos de cientistas católicos que discutem sobre o início da vida humana. Em abril de 2007, o STF foi palco de uma audiência pública que reuniu a comunidade científica e representantes da sociedade civil, contrários e favoráveis à Adin. Desde então, o tema vem sendo amplamente debatido pela sociedade, sendo alvo de recente pesquisa do Ibope, segundo a qual 95% dos brasileiros são a favor de pesquisas com células-tronco, considerando-as uma atitude em defesa da vida.
Trecho retirado do texto “A Sociedade Opina”, publicado no site do CLAM – Centro Latino Americano em Sexualidade e Direitos Humanos.
Lendo o texto, percebi que não só para mim, como para a maioria dos brasileiros que participaram da pesquisa a respeito do assunto, o tema já deixou de ser um embate religioso, discussões sobre o “sexo dos anjos” ou coisa que o valha. Espero que essa opinião também seja espelhada pelos nossos representantes no Supremo.




